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26 de setembro de 2010

Paêbirú - Uma lenda cara

Paêbirú (Peabiru), Caminho da Montanha do Sol. caminho que se estendia por mais de mil e duzentos quilômetros da costa brasileira, do Oceano Atlântico ao Oceano Pacífico. O álbum brazuca lançado em 1975 por Lula Côrtes e Zé Ramalho , é uma grande miscelânea de gêneros, para não dizer uma "michórdia" sonora, podemos perceber: psicodelia , alguns elementos do jazz(improviso/perda do eixo melódico) e muito do regional nordestino. Foi um dos primeiros discos não declarados da psicodelia brasileira. O disco é hoje o vinil com maior valor comercial no mercado "brechóico seborréico" do Brasil , bem conservado, um disco da edição original vale em torno de 4 mil reais, o que sinceramente acho um estúpido exagero, quase uma excentricidade insana, muita grana e muita "lenda" para pouco conteúdo estético.

A principal inspiração dos musicos na criação do disco foi a Pedra do Ingá , situada no município de Ingá , no interior da Paraíba , que é hoje um dos monumentos arqueológicos mais significativos do mundo.

No decorrer da criação do disco, a variedade de lendas sobre Sumé (entidade mitológica na qual os indígenas acreditavam antes da colonização ), inspiraram a faixa de abertura, como diversas passagens do álbum. Outras entidades importantes da cultura afro-brasileira como Iemanjá também são citadas no disco. E este mergulho no rico aspecto cultural do Brasil, certamente é o grande mérito do disco, além de ter sido executado por excelentes músicos, como Alceu Valença e Geraldo Azevedo.

O vinil duplo, com onze faixas, não é das coisas mais agradáveis de se ouvir, o contexto não é harmônico, e sem essa de "harmonia no caos" e tantas outras desculpas e "conceitos" para tentar justificar a ausência de Música. O álbum teve prensagem única de 1.300 exemplares. Destes exemplares, em torno de 1000 se perderam em uma enchente que ocorreu em Recife em 1975. Junto com os exemplares perdidos, também foi destruída a fita máster. Se não fosse o grau de historicidade da bolacha, bem que tudo poderia ter ido. Paêbirú foi relançado no ano de 2005 em vinil e CD na Europa pelo selo Mr. Bongo. Nunca foi lançado no Brasil no formato CD. E já que ele está assurdamente fora de catálogo, vamos disponibiliza-lo aqui para que vocês façam suas próprias análises. É bom que se diga,que sou profundo admirador da obra do Zé, mas como tudo nesse mundo, nada ou ninguém pode ser absolutamente perfeito. Um pequeno parêntese para fecharmos a tampa: certa vez há muitos anos, perguntei à um grande músico amigo meu, o que era a psicodelia na música, ele olhou fixamente para a parede amarela e respondeu: "Pegue qualquer disco, ponha na picape e preste atenção. Se você tiver a impressão de que os instrumentos estão indo cada um para um lado e perceber notas aleatórias, num clima meio nom-sense, você descobriu a psicodelia, meus pêsames."


Por Mario Medella

Para realizar o download deste vinil, clique no link a seguir:

14 de setembro de 2010

[Mitos Fritos] Nem Tanto ao Mar Nem Tanto ao Beat

O Afrobeat é um estilo africano de tocar e compor, surgido na Nigéria na segunda metade dos anos 60, atribuido por alguns a Orlando Julius, e pela maioria a Fela Cuti, pois bem, o que verdadeiramente nos interessa, não é como, quando e onde, mas o porquê do exagero de alguns melômanos em colocar o Afrobeat como uma espécie de "fenômeno transcendental", o "fillet mignon" da música africana. Muita calma nessa hora! Vamos analisar sem paixões a estética do badalado estilo de Fela e sua turma.

É notória a influência do Soul/Funk, Jazz, Highlife e logicamente da música Iorubá e africana em geral no estilo Afrobeat, porém se prestarmos o mínimo necessário de atenção, veremos, ou melhor, ouviremos o grande "fosso" que há entre influenciadores e influenciados, principalmente no aspecto harmônico, nesse caso não a harmonia que trata da progressão e encadeamento de acordes, mas, aquela que abrange o conjunto da obra. Se eu tivesse que encontrar um termo para definir com exatidão a estética do Afrobeat, seria: "desconjuntada", não precisamos
ir muito fundo nem muito longe, basta ouvirmos os metais em qualquer canção do Godfather of Soul (James Brown) e traçar o paralelo.

O som dos vovôs nigerianos é uma massa sonora não sensibilizante e extremamente repetitiva, e creio que a maior importância do movimento está no conteúdo político/social de suas letras. É bom que se diga que o Afrobeat produziu bons músicos, como o batera Tony Allen, por exemplo; e antes que alguém diga ou pense que aqui existe algum tipo de preconceito com a música africana, posso dizer que figuram em minhas estantes e em meu coração belos artistas da Mãe África, como: Mirian Makeba, Duo Ouro Negro, Lokua Kanza, Ladysmith Black Mambazo, Cesária évora, Ali Farka Touré, Africando, Johnny Clegg, Hug Masekela, King Bruce, Celestine Ukawu, Haruna Ishola e muitos outros. Dois detalhes interessantes merecem registro: Muitos musicos de jazz e Soul têm sido atraídos para o Afrobeat. Desde Roy Ayers nos anos setenta a Randy Weston nos anos noventa, esse interesse resultou em álbuns como África: Centre of the World de Roy Ayers, produzido pela Polydor em 1981. Em 1994 Branford Marsalis , saxofonista de jazz, incluiu amostras de Fela "Beast of No Nation" no seu álbum "Buckshot le Fonque".

O outro detalhe é que alguns DJ's da nova geração dos anos 2000, se apaixonaram tanto pelo material de Kuti e outros raros lançamentos, que fizeram compilações e remixes dessas gravações, dando uma nova onda ao estilo. O curioso é que nos dois casos o Afrobeat se torna bem mais "digerível". Meu amigo Rúbero Ezequias (catedrático de Berklee Jabour) quando interrogado sobre o estilo falou: "prefiro os atabaques altaneiros que acompanham melódicos pontos, em nossos terreiros de Umbanda".

Por Mario Medella

9 de agosto de 2010

[Mitos Fritos] O xodó da MPB

Achamos de bom tom iniciarmos este artigo listando alguns hits do nosso simpático rubro negro Jorge Ben Jor:

Que maravilha
Os alquimistas estão chegando os alquimistas
Ive Brussel
Bicho do mato
A banda do Zé Pretinho
Caramba!... Galileu da Galiléia
Taj Mahal
Fio maravilha
País tropical
Mais, que nada
Chove chuva
Por causa de você, menina
Agora, ninguém chora mais
Charles, anjo 45
Xica da Silva
Cadê Tereza
Bebete vãobora
Curumim chama cunhatã que vou contar [Todo dia era dia de índio]
Oé, oé faz o carro de boi na estrada
Santa Clara clareou
Telefone
Zazueira
W Brasil
Ponta de Lança Africano
Eu Quero Mocotó


Se ouvirmos de uma tacada estas canções uma a uma, poderemos perceber com clareza a pouca ou quase nenhuma diversidade, seja no aspecto musical (rítmico/harmônico/melódico), seja na "poesia" das letras. Não sei de quem foi a "genial" idéia de rotular o estilo do Ben de Samba Rock, sei que a primeira vez que a expressão apareceu foi em 1959 no samba de Jackson e Gordurinha - Chiclete com Banana, "é o samba rock meu irmão".

A música de Ben não é uma coisa nem outra, e exatamente aí está o real mérito do compositor, ele criou uma identidade própria. Seu primeiro disco de 1963, "Samba Esquema Novo", não é Bossa Nova, não é Jovem Guarda, muito menos samba tradicional, é simplesmente Jorge Ben, apesar de influênciado por estes gêneros. É bom que se diga que o próprio Ben não endoçava o termo "samba rock": "Quando eu inventei essa batida, chamava de sacundin sacunden, depois, na época da jovem guarda, virou jovem samba, e, mais tarde, sambalanço", sinceramente prefiro assim, termos mais adequados para o swing rasgado de seu violão que emoldura suas letras simplistas e sinceras. Uma das coisas das quais não posso concordar, é a atitude de alguns colegas em relação ao músico, tratando-o como se fosse uma espécie de entidade, um gênio do swing nacional. Vamos com calma! devagar com o andor que o Jorge é de barro.

Recorrendo novamente ao meu velho amigo Rúbero Ezequias (catedrático de Berklee Jabour) que dizia: "O Jorginho deve ter umas oitocentas e doze letras que flutuam freneticamente em no máximo oito harmonias."

Por Mario Medella

5 de agosto de 2010

[Mitos Fritos] Botando o pingo nos "is" e "j's"

Vamos nos remeter ao dourado ano de 1958, mais precisamente ao disco "Canção do Amor Demais" de Elizeth Cardoso, lançado pelo pequeno selo Festa, onde nas faixas "Chega de Saudade" e "Outra Vez", ambas de Tom e Vinicius, como todas as demais canções do disco, ouvia-se pela primeira vez em gravação o violão de João Gilberto, e é justamente aí que reside o ponto nevrálgico deste modesto artigo. Qual foi o real papel e a importância do nosso bom baiano no contexto da Bossa Nova e consequentemente na história da MPB?

1) A introdução de encadeamentos dissonantes (harmonia do Jazz) na estrutura harmônica da composição nacional?
R: Não. Músicos como Johnny Alf, Dick Farney, o próprio Tom Jobim e vários artistas de menos expressão já o faziam desde os primeiros anos da década de 50. Utilizando o "two five" e outros tantos recursos e mumunhas da chamada harmonia funcional.

2) O rompimento com o chamado "vozeirão", "dó de peito", a empostação herdada do canto lírico que imperou na MPB na primeira metade do século XX?
R: Não. Noel Rosa, que não tinha lá muita voz, já gravava com seu pouco material vocal algumas de suas geniais canções nos anos 30. Para chegar mais próximo da discussão em questão temos o próprio Dick e Lúcio Alves, que com seus timbres graves, cantavam de forma aveludada e malemolente, isso para não falar em Mario Reis, que é considerado por muitos o precursor do jeito "bossa nova" de cantar.

3) A criação da "batida diferente", através de uma variação da síncope, tendo como base o ritmo do samba e influenciando toda uma geração de músicos?
R: Apesar da maldosa especulação de alguns músicos berimbolantes, de que o chamado "violão gago", decorreu de uma deficiência técnica da mão direita do músico, não acertando de forma alguma a tradicional síncope do samba. esse mérito ninguém jamais tirará do baiano, João tornou-se o símbolo vivo da Bossa Nova, criando o ritmo propriamente dito e como dizia um amigo em comum que tivemos: "o Joãozinho não canta, conta segredos".

4) A BN aconteceria sem ele?
R: Certamente sim, porém sem algumas características marcantes e marcadas, que formam a lírica trajetória do gênero mais difundido no mundo depois do Jazz e do Rock. Mas é sempre bom lembrar que a grande cabeça pensante, musicalmente falando, da Bossa Nova, foi Antônio Carlos Jobim. João Gilberto jamais perderá sua real importância na história do cancioneiro popular do Brasil, a única coisa que não concordamos é com o discurso exacerbado e pegajoso, como se o nosso bom baiano fosse o Jimmy Hendrix da Bossa Nova.

Como dizia meu velho amigo Rúbero Ezequias (catedrático de Berklee Jabour): "O grande problema do Joãozinho é a monotonia, vai muito bem até a terceira faixa."


Por Mario Medella

3 de agosto de 2010

Mitos Fritos

A coluna "Mitos Fritos" tem a única intenção de "aparar" certos exageros contidos na história antiga e recente da chamada MPB e da música do mundo. Sem pretender em momento algum desvalorizar estilos ou artistas, mas pontuar sem hipocrisia e com firmeza o aspecto histórico e estético de artistas, movimentos, estilos e canções. certamente dizendo o que muita gente pensa ou já pensou e jamais ousaram falar, pois soaria como uma espécie de "sacrilégio".

Lógico que existem também aqueles que discordarão ferozmente e acharão tudo o mais completo disparate, tudo bem, afinal de contas este blog é de "Paz & Música", respeitando o "ponto de ouvido" de todos os seus frequentadores.



Não precisamos ser psicólogos para sabermos que o ego humano é dado a processos de idolatria, mitificando coisas e pessoas que não tem envergadura para tal. E é na religião que este processo torna-se bem visível, porém nas artes não é muito diferente.

Na música vemos o "endeusamento" acontecer por duas vias principais, ora através da mídia, que fabrica e impinge ídolos em nossos dez por cento de utilização mental, ora pela atuação frenética de fãs alucinados, para não dizer fanáticos.

A "Mitos Fritos" vai mexer no "vespeiro" que é o panteão dos "intocáveis" da MPB e da música terráquea. Sem críticas descabidas ou ataques pessoais, apenas analisando friamente e sem julgamentos, a real importância de cada um dentro de seus respectivos contextos.

Por Mario Medella