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10 de janeiro de 2011

A posse da cultura

Ana de Hollanda, a nova ministra da cultura, tomou posse do cargo segunda-feira em Brasília. A nova ministra foi recebida com uma festa organizada pelo próprio Ministério da Cultura no auditório do Museu da República. Além das apresentações de alguns artistas, outros sete ministros participaram do evento, entre eles o ministro da educação Fernando Haddad, o chanceler Antonio Patriota e o advogado-geral da União, Luís Inácio Adams.

Em seu discurso de posse, a ministra enfatizou que dará continuidade ao trabalho já desenvolvido pelo antecessor, Juca Ferreira, "minha gestão jamais será sinônimo de abandono do que foi ou está sendo feito" e reiterou que o foco de sua gestão será na criação: "A criação será o centro do sistema solar de nossas políticas culturais, por uma razão muito simples: não existe arte sem artista."

Em relação ao projeto de revisão da Lei de Direito Autoral, a ministra disse à imprensa que o anteprojeto deve passar por mais uma análise antes de ser enviado ao Congresso. "O ministério vai ter de ter uma atitude madura de como analisar o projeto de lei. Só posso dizer que foi bastante polêmica a recepção. Se tem polêmica, vamos ter de afinar um pouco mais".

Mas o grande enfoque de seu discurso foi na aprovação do vale cultura, subsídio do governo que oferecerá um vale de R$50 aos trabalhadores que poderão utilizá-lo no consumo de bens culturais (cinema, teatro, livros, etc). "Vamos aprovar este ano o Vale Cultura, para que a gente possa incrementar a cesta dos trabalhadores, que não pode ser só básica. Queremos fazer o casamento da ascensão social com a ascensão cultural para acabar com a fome de cultura."

Para ler o discurso de posse na íntegra siga o link.

31 de dezembro de 2010

Último dia de quê?

Olá amigos do P & M, andamos um pouco ausentes, mas blogueiro também tira férias, estamos vindo com força total em 2011.

Hoje acordei com o estrondo de um foguetão, certamente disparado por algum cidadão mais eufórico com a passagem do ano. Como de costume levantei, joguei um charme para mim mesmo ao passar pelo espelho do quarto (sem essa de narcisismo), adentrei o toalete e fui ler o jornal (online é claro), aqui cabe um parêntese além do parêntese, é exatamente neste ambiente íntimo e perfumado e em outro nem tão íntimo e muito menos perfumado que todos os seres ditos humanos tornam-se absolutamente iguais, que eu chamo filosoficamente de "a alquimia do S duplo": o sanitário e a sepultura.

Após a breve reflexão escatológica, sentei-me ao sofá e meus olhos semi-cerrados buscaram a estante, e logo ali na prateleira central, a esquerda, abaixo do panteão dos poetas e ao lado do areópago dos metafísicos, estava aquele espaço que toda estante que se preze possui, a prateleira onde repousam os bibelôs de quermesse, os berloques que pertenceram a vovó falecida, os biscuits insossos de porcelana paraguaia, cristais tchecos que eram o xodó do pai austríaco e toda a sorte de badulaques e bugigangas. Particularmente na minha notam-se apenas três objetos: O "Rodolfo", um crânio de estimação que ganhei a muitos anos de um velho amigo que à época era estudante de medicina, ao lado direito do "Dôfinho", como carinhosamente o chamo, está uma ampulheta em plena atividade, que um outro amigo me trouxe como souvenir do templo de Cronos na velha Cólquida, já ao lado sinistro repousa um galo, daqueles que mudam de cor conforme o clima, cafonérrimo, esse aí deve ter vindo do SAARA.

Três símbolos perfeitos no dia perfeito para uma breve, porém profunda reflexão sobre o tempo e o nosso papel dentro dele. Será que este rito de passagem é apenas uma folha e um ano a menos no calendário e na existência? Existir ou não existir, eis a ilusão.

A morte, o tempo e aquele que anuncia o novo incansavelmente. As eras não mudam, as únicas coisas passíveis de mudanças reais são pensamentos, palavras e principalmente atitudes, um processo interno e solitário, que não depende de regimes políticos, religiões e filosofias, depende apenas da vontade individual numa mente firme, somente dessa maneira podemos mudar um ano, uma década, um século e até fazer de verdade uma "nova era". No fundo somos velhos hippies, buscando sempre de alguma forma a Paz e o Amor, e vez em quando ingerindo algo com algum grau de toxidade para que a existência pareça mais leve e suportável.

Dizia um verso de uma canção infantil quando eu era adolescente: "depende de nós se esse mundo ainda tem jeito", uma das coisas mais certas que já ouvi em meus 46 anos de Terra. É preciso se perder a mania de taxar tudo que pode ser de utópico, tenho certeza que não estamos aqui inventando os mais diversos passatempos enquanto a morte não chega, ou dando uma de Carolina e vendo o tempo passar da janela, estamos aqui para sermos como o galo, arautos de um Novo Tempo, que vale muito mais que 1.000 réveillons.

Por hora nos resta curtir "Age of Aquarius", e que tenhamos uma boa entrada e uma melhor saída.

HAPPY NEW YEAR!!!

Por Mario Medella

13 de dezembro de 2010

30 anos sem Lennon

Há 30 anos morria assassinado o cara que pediu uma chance à paz, que imaginou um mundo mais humano, um mundo sem disputas de qualquer espécie, onde a única Religião seria o Amor, não esse "amor" que ouvimos a todo instante nas canções água com açucar que nos são impostas pela grande mídia com a clara intenção de imbecilizar o povo, mas a resistência está aí, obras consistentes com grande conteúdo, vibram e vibrarão por muitos e muitos séculos, amenizando nossas duras existências e combatendo a mediocridade autômata, obras como a de John por exemplo.

Vale a pena ler o texto do Vinicius do "Pilha na Vitrola" e conferir os lançamentos em homenagem à este verdadeiro ídolo pop não fabricado que foi, é e será o nosso John Lennon.


Mario Medella


Músico em excelência e músicas de excelência. Podem ser tratados assim tanto o cantor, guitarrista, pianista e compositor John Lennon, como suas canções.

Se fosse vivo, teria completado 70 anos em 9 de outubro, e sabe-se lá quantas pérolas mais não teria produzido. Sua obra, relançada agora em belíssimas edições e ainda desconhecida por muitos, vai além dos indiscutivelmente fantásticos álbuns gravados ao lado de Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr.

Com o fim dos Beatles, anunciado por McCartney em 1970, Lennon, que já havia produzido os discos Two Virgins, Life With The Lions, Wedding Álbum, além do ao vivo Live Peace in Toronto, ainda nos anos 1960 (estes não fazem parte do pacote de relançamentos) mergulhou, ao lado de Yoko Ono, na carreira solo.

Com comemoração mundial, a obra do músico britânico cuja voz há mais de 40 anos cantou e lutou pela paz no mundo, está disponível em uma caixa batizada John Lennon Signature (EMI Records, R$ 1.000 em média), importada no mercado brasileiro.

A caixa traz, além dos oito discos de estúdio, dois outros álbuns (Home Tapes e Singles) com gravações caseiras inéditas e singles, além de um livro com textos escritos por Yoko Ono, Sean Lennon e Julian Lennon especialmente para a edição comemorativa. Os discos foram remasterizados a partir das fitas originais e supervisionados pessoalmente por Yoko, que tratou de dar mais ênfase à voz do cantor e deixar a sua própria (quando canta junto) com menos destaque. [pg] Para quem não pretende desembolsar muito dinheiro, há outra opção. Os títulos John Lennon/Plastic Ono Band, Imagine, Some Time in New York City, Mind Games, Walls and Bridges, Rock 'N' Roll, Double Fantasy/Stripped Down e Milk and Honey também podem ser adquiridos separadamente (estes sim, lançados no mercado brasileiro) e custam em média R$ 34,90 cada, com exceção do duplo Double Fantasy/Stripped Down (R$ 54 em média). Lançados em formato digipack, os discos contêm livreto com informação adicional, letras e fotos.

Estão disponíveis também duas compilações. A primeira, Gimme Some Truth (R$ 160 em média), traz quatro CDs. Na lista de canções estão Instant Karma! (We All Shine On), Steel And Glass, Mind Games e uma versão ao vivo para Yer Blues. No total são 72 composições.

A segunda é Power to the People: The Hits (R$ 39,90 em média). Entre as músicas escolhidas estão além da faixa homônima, Gimme Some Truth, Woman, Imagine, Give Peace a Chance e Jealous Guy. Há uma versão do álbum que traz também um DVD (R$ 59 em média) com 15 vídeos, entre eles, Whatever Gets You Thru the Night, Mind Games, Stand By Me e #9 Dream, por exemplo.

Se a sugestão é comemorar e relembrar a música de John, como a própria Yoko disse. "Acorde ouvindo a voz de John. Aproveite. Dance com ela em seu coração. Mantenha John perto de você. Ele ama você". Então, chegou a chance.


Por Vinicius Castelli


Blog Pilha na Vitrola

1 de dezembro de 2010

Um samba inédito para uma saudade antiga


Em meu aniversário de 16 anos, a exatos 30 anos, morria o velho e genial Angenor de Oliveira, o Cartola, que com sua imensa alma repleta de poesia, inundou o mundo com belas melodias e letras impecáveis, deixando um pouco mais leve nossa fastidigiosa existência humana.

A festa rolava frouxa, meus amigos embalados pela disco music, Bee Gees, Donna Summer, Village People e outros bichos, quando meu avô apareceu na sala e me chamou num canto, larguei as mixagens mirabolantes e fui até lá, ele disse: Cartola morreu..., sabendo da minha profunda admiração pelo ícone da Verde e Rosa. Olhei fixamente o quadro ao lado, uma paisagem noturna, toda em tons de azul, pintada por meu tio médico, que entre uma cirurgia e outra era metido a Renoir. Não titubiei, fui até o meu quarto, peguei um bolachão do Angenor e sapequei na estroboscópica Techinics, que parecia girar em rotação de angústia, "nunca mais RPM". Acho que vocês sabem o que aconteceu, levei uma vaia categórica, não importa, desloquei meu olhar pelo janelão do avarandado e fui dar com Vesper, que ainda brilhava imponente ao lado de Selene (a lua), nesse momento preciso, de total contrição, murmurei: perdoa Cartola, eles não sabem o que fazem. E depois de correr e olhar o céu, disfarçei e chorei, não haviam rosas pra me consolar, mesmo porque de nada adiantaria, elas não falam mesmo. Empunhei o microfone e bradei aos quatro cantos do velho AP tijucano: Cartola morreu, no disco tocava: "em Mangueira quando morre um poeta todos choram/vivo tranquilo em Mangueira porque, sei que alguém há de chorar quando eu morrer...". Lá no fundo da discoteca improvisada, um gaiato gritou: "quem é esse cara!" Imediatamente respondi no mesmo tom: "ainda bem que não é o seu pai!".

A festa se apagou nos trâmites oníricos da história, mas as formidáveis canções do Mestre da Mangueira estão aí, e ficarão por aí pelos séculos e séculos Amém. E é por essas e outras que quando li o excelente artigo da Marília, publicado aqui no blog, na coluna "Prosa Carioca", tive vontade de fazer um samba para registrar essa data, un samba de exaltação e saudade, e assim foi, reli mais umas 17 vezes o precioso artigo da Marília e parti sem piedade para o meu "estúdio de empregada", saindo de lá somente quando o samba estava todo alinhavado.

Como eu queria publicá-lo no blog exatamente no dia 30 de novembro, dia dos 30 anos de sua morte e dos meus 46 anos de vida, a gravação não saiu como deveria, e aqueles que sacam do negócio sabem o que eu estou falando. A correria foi grande. Faz partitura, vai na ECM, manda pra editora, fala com músicos amigos, monta imagens para o vídeo, e isto tudo sem perturbar os afazeres profissionais e domésticos deste pentatleta que vos fala.

O samba está aí, podem baixar, tocar, ouvir, e principalmente reverenciar o nosso Angenor.

Voz e violão: Mario André

Piano: Heitor Brandão

Percussão: Maurício Barbosa

Mixagem: Erik Brandão

Para realizar o download, clique no link a seguir:
[30 anos - Saravá Cartola]


Por Mario Medella

20 de novembro de 2010

Desabafo na base da indiferença sensível

Não me causa mais espanto, nem angústia, nem ira e muito menos compaixão, quando assisto de camarote a ascensão cega e desgovernada de músicos, cantores e compositores, que almejando alguma fama e algum dinheiro, passam por cima de valores e princípios que pregavam e diziam acreditar piamente, sem contar a "esclerose funcional" que é produzida de forma consciente para causar o absoluto esquecimento de coisas e pessoas que habitaram seus passados recentes.

Toda ascensão tem seu limite, quando chega ao ápice começa a traçar o caminho contrário (a queda). É assim com os impérios, com as religiões e até com a geografia do planeta, por que nós, pobres fazedores de arte, amantes da beleza e mortais por excelência, estaríamos fora dessa lei de fluxo e refluxo?

Logicamente estamos falando de artistas de real valor, e em momento algum questionando talento e qualidade, mas buscando uma simplificada abordagem psicológica sobre os egos inchados, quase sempre repletos de idéias, projetos, marketings e até canções, porém, completamente vazios de consciência. E quanto maior a vaidade, o orgulho e a ambição, "maior é o tombo do tonto afinal". Graças aos deuses existe o outro lado, artistas que vão calmamente em sua caminhada, construindo uma obra consistente e substancial, que mesmo depois do decreto de sua inexistência física, ficará por aí, ecoando pelas eras.

E é por essas e outras que padeço dessa benéfica "indiferença sensível", levando muito a sério o velho dito popular um tanto modificado: "o que os ouvidos não ouvem o coração não escuta", e por isso a indiferença é sensível, porque só atua sobre aquilo que chega através dos sentidos e jamais naquilo que esteja atrelado aos sentimentos mais sublimes.

Nessas horas tenho uma imensa saudade da postura do Cartola e de tantos outros que já estão compondo a sinfonia da eternidade, falo isso sem nenhum tipo de "hipocrisia saudosista", mesmo porque, isto é um problema crônico do nosso "eguinho", com as devidas graduações, alguns se deslumbram com facilidade, outros são mais resistentes e consequentemente muito mais conscientes. Chego até a acreditar que a tão falada globalização tem influenciado de forma negativa alguns jovens talentos que já conseguiram umas poucas migalhas do disputado sucesso e se consideram o supra-ultra-hiper-mega qualquer coisa.

É como diz meu filho filósofo "Dante Picante": "quem não tem Flix não entra em Plax".


Por Mario Medella

16 de novembro de 2010

Breve história do Rock Brasil

O Rock Brasil no formato que conhecemos hoje surgiu em 1982 com a "Blitz", banda que na época tinha em sua formação: Lobão, Evandro Mesquita e Fernanda Abreu, entre outros. Inclusive, o nome foi sugerido pelo próprio Lobão, devido às blitzes que a galera sempre levava da polícia.

Bem, mas você pode muito bem dizer que isso é um absurdo, que antes da Blitz tivemos Raul Seixas, Mutantes e O Terço. Entre as mais significativas. Sim, concordo com você em parte. Em parte, pois considero esse movimento um "Pré-Rock Brasil", pois naquele momento a cultura não estava ligada ao rock no Brasil. O tropicalismo tomava conta, juntamente como a Bossa Nova. O que tínhamos por aqui eram ecos do que acontecia nos EUA e apenas algumas pessoas começavam a difundir essa cultura.

Também considero que a carreira dos artistas acima citados não eram completamente rock.


Raul Seixas, em 1962 , montou a banda "Os Relâmpagos do Rock", que veio a se tornar "The Panthers" e finalmente gravou como "Raulzito e os Panteras". O grupo que era influenciado por Elvis e Bossa Nova, na verdade não trilhava o caminho do Rock, com letras românticas e guitarras dedilhadas o grupo não aconteceu na época. Tanto que Raul largou a banda e se tornou produtor de artistas como: Jerry Adriani, Renato e Seus Blue Caps, Trio Ternura e Sérgio Sampaio. Só depois em 1972 ele colocou "Let Me Sing Let Me Sing" na final do Festival Internacional da Canção. Mas Raulzito sempre caminhou pelo bolero, brega e baião.

"Os Mutantes" começaram a carreira em 1966 com o nome de "Six Sided Rockers", com Rafael, Arnaldo Baptista, Rita Lee Jones e Suely. Ainda em 66, gravam um compacto com o nome de "Os Seis" e são um fracasso total. Com a saída de Suely e Rafael, a banda troca o nome para "Mutantes". Em 15 de outubro de 66, se apresentaram no programa "Pequeno Mundo", de Ronnie Von. Seguindo uma carreira pontuada pelo experimentalismo e lisergia, bem no estilo do Pink Floyd de Syd Barret, os Mutantes estavam muito mais para o Progressivo do que para o Rock. Tanto que chegaram a ser dispensados da gravadora por não ter um sentido comercial na música, já que todas duravam mais de 7 minutos, isso por volta de 1972. Com a saída de Rita Lee, a banda entrou numa troca frenética de integrantes, que no fim levou a total descaracterização da banda, decretando o seu fim.


Já "O Terço", que surgiu em 1969 e tinha Vinícius Cantuária e Flávio Venturini em sua formação, começou por um caminho do Rock n’ Roll dos anos 60, mas enveredou pelo Progressivo e teve uma brilhante carreira. Lançando em 1975 um disco considerado por muitos até hoje o melhor do Progressivo nacional: o "Criaturas da noite", "Mudança de Tempo" (1978) e "Som Mais Puro" (1982) trazem a banda em um formato mais MPB após a saída de Venturini para formar o 14 Bis. A banda continua na ativa até hoje, seu último lançamento foi um tributo a Raul Seixas.

Por estes motivos volto na questão de que em 1982 a Blitz mudou os padrões do Rock Brasil. Temos alguns precursores que ainda não tinham qualquer influência sobre o público ou a mídia. Por exemplo, em 1980, Edgar Scandurra - hoje no "Ira!" - Tinha a banda "Subúrbio", que tinha em seu repertório o futuro sucesso "Pobre Paulista". Em 1980 o "Ultraje a Rigor" já estava montado, mas não ainda com esse nome. Somente em 1983 participaram do projeto "Boca no Trombone", do Teatro Lira Paulistana, em São Paulo, seu primeiro show só com composições próprias.
Em 1981 o "Barão Vermelho" já ensaiava na casa do baixista Dé, mas ainda sem um vocalista fixo, naqueles tempos, até Léo Jaime cantou com a banda. Cazuza só entraria no final daquele ano e o disco sairia no final de 1982, já na onda do Rock Brasil. Também em 1981, o "Kid Abelha e os Abóboras Selvagens" estava montado, mas somente em 1982 a banda é convidada pela WEA para uma coletânea chamada "Rock Voador". Logo depois, em 1982, "Pintura Íntima" sai em compacto e vende 100 mil cópias. 1981 marca também o início do "Azul Limão", que só iria ter sua formação estabilizada em 1983 e depois partiria para as gravações profissionais. "Os Paralamas do Sucesso" ainda estavam em Seropédica (RJ), no campus da Universidade Rural e o baterista ainda era o Vital. Barone só entraria em 1982 e o primeiro disco só sairia em 1983, "Cinema Mudo".

Pois bem, chegamos a 1982 , um ano crucial para o nosso Rock.



Após um compacto com excelentes vendagens, o single " Você Não Soube Me Amar" , lançado em julho de 1982. Um disquinho - que trazia a faixa principal no lado A e Evandro berrando "nada, nada, nada, nada!" no lado B. Quando o clipe da música foi parar no Fantástico , então, já era tarde - o rock brasileiro já havia chegado lá. O LP " As Aventuras da Blitz" , lançado dois meses depois, já sem Lobão na bateria, pela Som Livre, uma grande gravadora na época. Com uma vendagem de mais de 100 mil discos no primeiro mês, a Blitz mostrou que o Rock Brasil tinha público e podia receber o investimento das gravadoras. A banda que tinha fortes raízes no teatro com o grupo "Asdrúbal Trouxe o Trombone", levou para sua música a dramaticidade dos palcos. Os diálogos musicas de Evandro com Márcia e Fernanda atiçavam a imaginação do público. E pelos bairros o que mais se via eram conjuntos fazendo mímicas da banda. As guitarras eram rítmicas e marcantes. Ricardo Barreto, tecladista e arranjador da banda conseguia costurar as letras grandes e por vezes sem rimas com melodias pops e contagiantes, transformando a banda no maior fenômeno da música nacional até então. Lobão lançaria o seu solo "Cena de Cinema" logo depois, mas não conseguiu nem 1/10 das vendagens da Blitz.



O "Capital Inicial" e a "Legião Urbana" estavam se formando em 1982, com o fim do "Aborto Elétrico", Dinho Ouro Preto só entraria no Capital em 1983.



Em julho de 1982, o "Camisa de Vênus", lá em Salvador, lançava seu primeiro compacto, com as músicas "Meu Primo Zé", um Punk sujo e honesto e "Controle Total", um cover do "The Clash", mas o nome da banda impedia que eles conseguissem um contrato com uma grande gravadora, o que só viria acontecer em 1984.



Em Setembro de 1982, o "Barão Vermelho" lança seu primeiro disco, que entre as músicas havia "Ponto Fraco", que somente alguns discos depois seria sucesso em uma versão ao vivo, e "Todo Amor Que Houver Nessa Vida", que só apareceu na carreira solo de Cazuza. O disco foi ignorado por crítica e público. Dos poucos comentários da época o que se podia ouvir era que o disco não era comercial.



No fim de 1982, sai "Seu Espião", o primeiro do "Kid Abelha". Junto com a formação do "Ratos de Porão" que participava da coletânea "Grito Suburbano" e o primeiro disco feito na raça do Punk Rock em 1983, o clássico e inigualável "Crucificados Pelo Sistema". Um marco na musica independente deste País, mas isso é um outro papo.



Em 1982, ainda com um nome estranho e com nove integrantes, os "Titãs do Ie Ie Ie", faziam uma releitura da MPB, mas só em 1984, com a saída de Ciro Pessoa, que a banda consegue um contrato com uma gravadora, isso já na onda do novo Rock Brasil.



A partir de 1983 , a onda do Rock Brasil já invadiu todo o País e gravadoras e programas de televisão investem pesado nos artistas nacionais.



"Radio-Atividade" , daBlitz é lançado em 1983 com embalagem luxuosa - capa dupla, encarte separado, arte detalhada, etc. O segundo LP emplacou bem mais sucessos - Betty Frígida, Weekend, Ridícula e, em especial, a gozadora A Dois Passos do Paraíso , com a célebre leitura da carta da "Mariposa apaixonada de Guadalupe".



O "Barão vermelho" já está no segundo disco "Barão Vermelho 2, que de início não consegue boas vendagens, mas foi só Ney Matogrosso regravar "Pro Dia Nascer Feliz" que a banda volta a ocupar as listas dos mais vendidos. Na distante Bahia, o "Camisa de Vênus" lança o primeiro disco de rock fora do eixo Rio/São Paulo. Os "Inocentes" colocam o Punk Brasil na linha de frente depois do evento "O começo do fim do mundo" no SESC de São Paulo, e lançam "Miséria e Fome". Lobão solta seu segundo disco " Ronaldo Foi Pra Guerra" e conquista de vez seu espaço como um dos poucos artistas solo de Rock no País.

"Os Paralamas do Sucesso" assinam com a EMI-Odeon, uma multinacional muito poderosa na época e lançam "Cinema Mudo". Que depois levaria a banda à turnês até pela América do Sul. O "Ratos de Porão" já está em Turnê pelo Brasil e marca época no Circo Voador tocando junto com "Zona-X", "Lixomania", "Inocentes", "Psykose" e "Coquetel Molotov". No sul do País, Wander Wildner entra para "Os Replicantes" e mais uma região do País aparece com um Rock de primeira. Logo vieram os "Engenheiros do Hawaii" e o "Nenhum de Nós".

O Rock se espalha no Brasil e em Belo Horizonte os irmãos Cavalera, Max e Igor decidiram chamar seus amigos de colégio Paulo Junior e Jairo para montar uma banda. Logo nasceria o "Sepultura". E os "Garotos Podres" se apresentam pela primeira vez em Santo André.

1984 vai dando continuidade a toda essa história.

1984 foi ano de Blitz 3 , último disco da primeira fase da banda. Lançado com capa em versão vermelha, branca e amarela. Músicas como Eugênio, Egotrip (envolvida em acusações de plágio de Eu Me Amo , do Ultraje A Rigor), o blues carnavalista Cresci, Mamãe Cresci, Dali de Salvador e Taxi.

O "Barão Vermelho" inova na Praça da Apoteose, no Rio, no dia 15 de Setembro de 1984, junto com a Orquestra Sinfônica Brasileira e com o coro do Teatro Municipal, fazendo um rock-concerto fenomenal e ousado. E lançam o clássico "Maior Abandonado" que alcança o primeiro lugar em praticamente todas as listas de vendas do País. O "Camisa de Vênus" consolida sua carreira com "Batalhões de Estranhos"; lá podemos encontrar "Eu não matei Joana D’arc" e "Hoje".

Ainda em 1984, "Leve Desespero" chega à rádio Fluminense do Rio de Janeiro, era o "Capital Inicial" que saía do anonimato. Lá em Brasília, a "Legião Urbana" gravava sua primeira demo. Lobão já atacava até de ator no filme "Bete Balanço" com uma trilha sonora com a nata do Rock Brasil. Lobão teve sua maior vendagem até então com o sucesso da balada "Me chama".

"O Passo do Lui" mantém "Os Paralamas do Sucesso" em alta com uma balada Reggae/Ska, com esse diferencial e João Barone ganhando todos os prêmios de melhor instrumentista do Brasil. A Cogumelo Records contrata o "Sepultura" depois de assisti-los em um festival em Belo Horizonte. Os "Titãs" acontecem no Brasil inteiro com seu primeiro disco e o Hit "Sonífera Ilha". O "Ultraje", depois de muita luta, lança "Eu me amo/ Rebelde sem causa" em um compacto simples.

O "Sepultura" não estava sozinho na vanguarda da música extrema no País. O "Dorsal Atlântica", do Rio de Janeiro, lançava "Ultimatum", um disco extremo, rápido e a mais clara vertente Trash da música nacional até então.
Chegamos a metade da década mais criativa do Rock Brasil, 1985 .

No auge do sucesso, Cazuza briga com a banda e anuncia sua saída do "Barão Vermelho". Bom para o Rock Brasil que passa a ter agora dois artistas tocando o melhor do rock em língua portuguesa. O "Barão" havia acabado de tocar no Rock In Rio, junto com o "Kid Abelha". A gravadora CBS adquiria mais um artista do Rock Brasil para seu cast, o "Capital Inicial", lançando um compacto duplo e colocando música na trilha do filme "Areias Escaldantes".

Os "Engenheiros" aparecem na coletânea "Rock Grande do Sul" e a música "Sopa de Letrinhas" acaba sendo o maior destaque do disco. O "Ira!" inicia sua carreira profissional e como o Rock Brasil vai de vento em popa, "Mudança de Comportamento" é um grande sucesso comercial.

Foi também em 1985 que a maior banda de rock do Brasil lançou seu disco de estréia: "Legião Urbana". O disco chegou a impressionante marca de 710 mil cópias vendidas. "Os Paralamas" vêm logo na cola com "Selvagem?", vendendo 500 mil. Sai também o primeiro do "Sepultura" " Bestial Devastation".

Os "Titãs" lançam "Televisão" com a produção de Lulu Santos. Já com um status de banda grande, o disco sai com vários remixes e até um vídeo, fato raro na época. Toni Belloto e Arnaldo Antunes passam 26 dias presos por porte de Heroína.

Mas 1985 era realmente o ano do "Ultraje a Rigor". O disco foi o primeiro LP de rock nacional a conseguir discos de ouro e platina. Das 11 músicas do disco, 9 foram amplamente executadas e o Ultraje quebrou recordes de público em diversas casas de shows no Brasil inteiro. O disco se chamava "Nós Vamos Invadir Sua Praia".

1986, O ano da Estabilização.

O "Camisa de Vênus" continua na vanguarda do Rock Brasil e lança o primeiro disco ao vivo do nosso Rock, "Viva". é neste ano que Marcelo Nova conhece Raul Seixas e fazem uma apresentação juntos no Rio. Ainda em 86 a banda se destaca com os sucessos "Sinca Chambord", "Deus me dê Grana" e "Só o Fim", foi o auge da carreira da banda. O "Capital Inicial" tem seu primeiro disco totalmente censurado para menores de 18 anos. Foi a maior publicidade na época e o disco vendeu muito.

Os "Engenheiros" soltam seu primeiro disco lá no sul e conquista todo o Brasil. Humberto estava largando a guitarra e se dedicando ao baixo. Já que Marcelo saíra da banda e Augusto Links era o novo membro, estabilizando a formação do grupo. O "Ira!" continua muito popular com o disco "Vivendo e não Aprendendo". Já no "Kid Abelha", Leoni deixa a banda para montar o "Heróis da Resistência", por ciúmes de Paula Toller com Léo Jaime.

Este ano foi muito significativo para Lobão, depois de mais uma vez preso, foram oito vezes no total, lança "O Rock Errou" um disco forte, político e bem próximo do Heavy Metal. Na mangueira, onde passou a ser ritmista, foi recebido com festa e rajadas de metralhadoras. Ele era o novo mascote do Comando Vermelho.

O "Sepultura" dá seguimento a sua carreira já com fama internacional e lança "Morbid Visions". Os "Titãs" dão um novo rumo ao Rock Brasil com letras polêmicas e inteligentes. E ainda com uma produção nunca antes vista no nosso Rock. 1986 foi o ano de "Cabeça Dinossauro".

1987 . O barco começa a vazar água.

O "Barão" vem com "Rock’n’Geral". Que bem mais parece uma salada do que um disco, que se perde entre baladas e batidas pops. O "Camisa de Vênus" lança o primeiro disco duplo do Rock Brasil e anuncia o fim da banda. Na contra mão da decadência o "Capital Inicial" faz a abertura dos shows do Sting no Brasil, tocando para um público total de 400 mil pessoas. E tem a carreira deslanchada com o disco "Independência".

Cazuza assina com a Polygran e lança "Só se for a Dois", um disco com os dois pés na MPB. Já os "Engenheiros" lançam seu melhor disco da década "A Revolta dos Dandis", misturando filosofia e Rock n Roll e acertando em cheio no gosto do público e desagradando a todos os críticos musicais da época.

O "Kid Abelha" vem com o dançante, pop, eletrônico, mas nada rock "Tomate". Lobão continua com seu marketing de bandido. Foi preso de novo e lançou "Vida Bandida". Que já passeava pela MPB com "Chorando no Campo" e "Girassóis da Noite". Musicas compensadas por "Vida Bandida" e "Vida Louca Vida". Além do estrondoso sucesso de "Rádio Blá". O "Nenhum de Nós" lança seu primeiro disco, tendo que vir a São Paulo para gravar.

Os "Titãs" enfiam o pé na eletrônica e conseguem até uma boa vendagem, mas deixando o rock um pouco de lado. O "Ultraje" tem sua primeira troca de integrantes, com a entrada de Serginho Serra. Eles lançam o disco "Sexo", colocam música em abertura de novela, mas o disco não vende tanto quanto o esperado.

1988 - Perto do fim da década.

O "Barão" solta "Carnaval" e nada acontece. O "Camisa de Vênus" está desfeito. E Marcelo Nova inicia sua carreira solo. O "Capital" nos dá o desprazer do disco "Você não Precisa Entender", com um pop da pior qualidade. Cazuza produz muito, devido a doença, lançando dois discos e abraçando de vez a MPB.

Os "Engenheiros" se perdem com "Ouça o que eu Digo, Não Ouça Ninguém", Humberto já se achava o messias do Rock Brasil e viajava nas letras e arranjos todos muito complicados e pouco produtivos. No "Ira!" Edgar lança o seu primeiro disco solo "Amigos Invisíveis", a banda que também coloca uma música na abertura de novela, dá sinais de brigas internas, já que o disco "Psicoacústica" não consegue nenhuma repercussão.

Quem estava roubando a cena era a "Legião Urbana" que chegou a marca de 1.110.000 cópias de "Que Pais é Esse?", que trazia um bom Rock tradicional, feito de guitarra, baixo e bateria. Os "Paralamas" entram na mistura caribenha de "Bora Bora" e deixa o nosso rock para anos mais a frente.

Surge um grande representante do Punk neste ano, com letras politizadas e com dois vocalistas cantando juntos partes diferentes da letra, a "Plebe Rude" é uma das poucas renovações para o Rock Brasil a essa altura com "O Concreto já Rachou".

Os "Titãs", não lançam nada inédito, somente "Go Back", gravado ao vivo em Mountrex. O "Uns e Outros" explode com "Carta aos Missionários" mas as vendas não acompanham e a banda fica restrita a somente essa música.

1989 A Crise dos Grandes.

O "Barão" lança um "Ao Vivo", já que não tem material para um disco novo e precisa cumprir o contrato de um disco por ano. O "Capital" vem com "Todos os Lados" um disco até que razoável mas não obtem resposta do público e vende muito pouco. A briga entre Bozo Barreti produtor e tecladista da banda com os outros integrantes, fica mais aparente.

Cazuza dá seu último suspiro gravando "Burguesia". O último dele em vida. Os "Engenheiros" viajam na maionese e vão fazer uma turnê na Rússia!!!!!! Resultado: - Nada!!!



O "Ira!" vem com o inexpressivo "Clandestino". Paula Toller fica grávida e o "Kid" pára por dois anos. Quem está em alta é o "Nenhum de Nós" que tem "Camila Camila" estourada neste ano, fazendo o disco vender 210 mil cópias. Já os "Paralamas" vão mergulhando em experimentalismos com "Big Bang", onde o destaque é a balada "Lanterna dos Afogados" e novamente nada de Rock no disco.

Os "Titãs" estão afundados em uma mistureba chamada "Õ Blèsq Blom", que ninguém consegue entender direito.

O "Ultraje" lança "Crescendo", um disco que brinca com o fim da censura. O primeiro single tem um palavrão no refrão. Musicas como "Volta Comigo" falam de temas pesados como adultério. as rádios acabaram não executando estas musicas e o disco não vendeu bem.



Por Bruno Horta

2 de novembro de 2010

A graça nas teclas negras

Travando diálogos virtuais com meu diletíssimo e folclórico amigo "Durinho do Andaraí" (ex-Durinho da Foz), que de vez em quando atende pela alcunha de Jonhson Mayer, descobri a história de uma das canções mais gravadas lá pelas terras do tio Obama: Amazing Grace, muito utilizada como tema natalino.

O autor do tema, John Newton (1725-1807), tem uma história bem curiosa. Antes de se tornar um respeitável e venerável clérigo, autor de muitos hinos espetaculares, ele foi um marinheiro dissoluto que, inclusive, participou do tráfico negreiro para os EUA e América do Sul. Consta que ele, juntamente com os outros marinheiros, costumava fazer uso sexual das negras jovens embarcadas.

Sua mãe, que frequentara a Igreja Anglicana e morreu quando ele tinha 6 anos de idade, sonhava em ver o filho pastor . O pai, que era católico, mas também flertava com a fé protestante, fora marítimo mercante e iniciou o filho no gosto por trabalhos em navios.

Sua conversão começou após uma tempestade em que seu navio quase naufragou e onde viu um amigo marinheiro ser arrastado por uma onda que atingiu um compartimento do barco onde ele próprio estivera poucos segundos antes. No meio da tormenta ele teria feito um gesto de submissão e de entrega do seu destino nas mãos de Deus. De certa forma isso lembra um pouco a conversão de S. Paulo, que precisou cair do cavalo e ficar cego para certificar-se dos poderes celestiais.

Por desacatar comandantes de navios acabou prisioneiro e escravo em Serra Leoa, onde permaneceu como desaparecido por longo tempo. Tendo conseguido enviar uma carta para a Inglaterra, seu pai providenciou que um navio mercante - que percorreria toda a costa africana - o procurasse por lá, o que resultou em sua libertação.

Amazing Grace faz parte do chamado "spirituals", canções de conteúdo religioso, que desde o começo do século XX sofreu influência direta do Jazz e do Blues, ou como afirmam alguns, que o processo foi o contrário.

Lá em seus primórdios o "Spirituals", baseava suas composições na slave scale(escala escrava), que utilizava apenas sustenidos e bemóis(teclas negras do piano), hoje em dia isto certamente seria politicamente incorreto e estaria proibido, assim como acaba de ser o livro "Caçadas de Pedrinho" de Monteiro Lobato, que não pode mai ser adotado por escolas, só rindo. Se todo racismo fosse o que "impera" no alegre Sítio do Pica-Pau Amarelo, essa praga jamais teria existido no mundo.

Voltando a "Incrível Graça", cá entre nós, e que todos nos ouçam, o Godspell do Tio Sam, musicalmente falando, está anos-luz a frente do "gospéu" tupiniquim.

O Paz & Música preparou um mimo exclusivo para os seus frequentadores. Uma seleção inédita com 22 versões de Amazing Grace, Aleluia!

Por Mario Medella

1) Acappella

2) Anne Murray

3) Celine Dion

4) Christina Aguilera

5) Demis Roussos

6) Dolly Parton

7) Elvis Presley

8) Janis Joplin

9) Joan Baez & Mimi Farina

10) Johnny Cash

11) Judy Collins

12) Katherine Jenkins

13) Kelly Family

14) Louis Amstrong

15) Nana Mouskouri

16) Randy Travis

17) Santana & Jeff Beck

18) Sinead O'Connor

19) Steve Vai

20) Willie Nelson

21) Yes

22) Andre Rieu


Para realizar o download, clique no link a seguir:
[Amazing Grace Versions]

30 de outubro de 2010

O Teatro Mágico

Estava eu em pleno domingão lusco-fusco, usufruindo uma desintoxicante sauninha, lá no oeste do Belmonte, sob os auspícios da mulher amada, que a alguns metros acima da minha cabeça, preparava um estonteante bacalhau a espanhola, quando surgiu à porta do pequeno e agradável inferno meu amigo Júlio Júnior, mais conhecido como Julinho, que não é da Adelaide, e como papo de melômano é música, começamos a tertúlia, enquanto assavamos, falando sobre bandas e artistas novos. Papo vai papo vem, ele comentou sobre uma banda, ou melhor, uma trupe, "O Teatro Mágico", uma galera que une a música ao circo, a poesia e ao teatro, imediatamente minha memória foi até o "Grande Circo Místico" e ao velho e inesquecível "Asdrubal Trouxe o Trombone", lembrei-me também do "Tangos & Tragédias e da "Intrépida Trupe, mas confessei ao julinho desconhecer o trabalho dessa turma, prometi porém, como bom melômano, fazer um minucioso levantamento auditivo do materal disponível do "O Teatro Mágico".

Pois é... alguns dias se passaram e olha a galera aqui no Paz & música, o que significa terem passado pelo rigoroso critério de seleção do blog, que não deixa se enganar por invencionices e pataquadas rotuladas de modernidade, vanguarda, experimentalismo conceitual e outros bichos. Música é música e ponto. O que me chamou muita atenção, além da excepcional estética visual, foram as letras das canções, vale muito a pena conferir. Abaixo o Jabá.


Por Mario Medella


"Segundo Ato" é o mais recente álbum de Fernando Anitelli e sua trupe. As composições escolhidas colocam em debate o homem e a sociedade na qual vive. No primeiro CD (Entrada para Raros), a trupe estava imersa num universo paralelo, num lugar onde tudo era possível, "falávamos de lutar pelos nossos ideais, pelos sonhos. No "Segundo Ato", a gente dialoga sobre como realizar isso. É como se a trupe chegasse na cidade e se deparasse com as questões sociais e urbanas, como o cotidiano dos mendigos citados na música "Cidadão de Papelão" ou a problemática da mecanização do trabalho, questionada na canção "O Mérito e o Monstro". Indo mais além, na música "Xanéu nº53", há um debate sutil e, por vias opostas, mordaz, sobre o amontoado de informações que absorvemos, sem perceber, assistindo aos programas de TV da atualidade", explica Anitelli.

A trupe criada por Fernando Anitelli, já projeta a criação da terceira etapa, buscando aprofundar ainda mais os debates que cercam a sociedade desigual e desumana que nos rodeia. Procurando explorar a questão do livre compartilhamento das músicas na Internet defendendo a bandeira da musica livre, o Teatro Mágico passa, cada vez mais, a se apresentar com um perfil mais questionador e contestador. Essas transformações não poderiam, no entanto, encobrir o universo lúdico e fantasioso da trupe, mas sim, acrescentar uma pitada de realismo no conteúdo em geral, incorporando o lema de endurecer sem jamais perder a ternura.

É importante ressaltar que, após o assédio para que o coletivo finalmente se integrasse ao mainstream musical, assumindo uma grande gravadora, uma grande assessoria de imprensa, uma grande produtora etc, o Teatro Mágico preferiu ser conservador na inovação que trouxe ao mercado: organizar e fazer as coisas ao lado do seu grande incentivador, patrocinador e produtor: o público. Assim, o CD é vendido a preços populares e a distribuição das músicas é gratuita e livre pela Internet, com a diferença que desta vez, houve um investimento grande na produção dos fonogramas, comprovando assim, que mesmo no formato independente, é possível se fazer algo de qualidade e acessível.

Veja o vídeo


Para realizar o download, clique no link a seguir:
[O Teatro Mágico]

29 de outubro de 2010

Música de Bolso

Se você quer ter um panorama bem abrangente do que está se produzindo neste exato momento na cena indie do velho Brasa, de uma forma muito bem sacada, dentro de um profissionalismo que mescla simplicidade, inteligência e bom gosto, é só chegar até Música de Bolso. O projeto "Música de Bolso", foi idealizado e desenvolvido pela Ioiô Filmes Etc.

Atenção cantores e compositores, este é um excelente canal para divulgação de trabalhos sérios e consistentes

Olha aí a definição da própria galera do MB.

"Música de Bolso une a música e o cinema de forma espontânea. São canções sendo geradas em qualquer lugar onde caiba uma câmera. São artistas dialogando com o mundo ao seu redor e preenchendo com sons pequenos espaços onde, normalmente, não haveria música".

Por Mario Medella

9 de outubro de 2010

Uma cantora com C maiúsculo

Se a grande maioria das "mocinhas cantadoiras", que se lançam no cruel mercado fonográfico tupiniquim, e porque não dizer planetário, ouvisse Emma Shaplin, certamente chegariam à conclusão que precisam aprimorar e muito suas vozes, ou de forma mais radical, simplesmente desistiriam do intento de se tornarem "divas" da MPB e da música terráquea. A francesinha de 36 anos, que geralmente canta em italiano, solta a voz e prende a atenção e a sensibilidade de quem aprecia boa música. Apesar do rótulo de "soprano lírico ligeiro", Emma sabe muito bem popularizar seu canto, unindo tradição e modernidade, como na magnífica interpretação que seremos testemunhas auditivas e oculares neste solene momento.

Obs.: Popularizar algo, não significa diminuir qualidade, nem mudar o tipo de linguagem ou forma, muito menos alterar, deturpar ou desconstruir obras primas. Popularizar é fazer com que o maior número de seres humanos, portanto pensantes, tenham acesso ao bom, ao belo e ao verdadeiro, e ponto.

http://www.youtube.com/watch?v=_d6sQdilJ9c

Por Mario Medella

25 de setembro de 2010

Pra quem ama vinil!

Picapes com interface USB reúnem discotecagem analógica e digital. O vinyl pelo jeito nunca vai morrer. Apesar de destronado pela fita cassete nos anos 70, pelo CD nos anos 80 e 90 e nos últimos anos pelo MP3, o vinyl resiste. Depois de muitas inovações no campo do "turntablism", a arte da discotecagem ainda se sustenta em termos de vinyl. Mesmo depois do revolucionário software Final Scratch, que simula mixagens e efeitos de scratch que só podem ser feitos com discos de vinyl, tem gente que não abre mão e existe hoje um movimento de culto ao vinyl.

Para aqueles que cultuam e só compram suas músicas novas em vinyl, mas precisam também ouvir melhor seus discos em seus computadores ou iPods e também para os colecionadores, a solução para passar o vinyl para o computador é a picape USB. Através de uma simples interface USB a picape se liga ao computador e em certos casos diretamente ao iPod, quando vem com dock acoplado. Aqui vão duas dicas de modelos de picape USB. O da Stanton (Stanton T.90), mais profissa, oferece uma solução bem interessante incluindo a picape em si, um cartão de armazenamento de áudio, um pre-amp phono-to-line e um programa de gravação, tudo num só produto. Custa por volta de 400 dólares e tem um design muito bonito e moderno.

O acabamento da T.90 é de plástico, o que a faz parecer um pouco menos profissional, mas é justamente isso que a torna super leve. Não chega aos pés das novíssimas picapes Numark TTX e Vestax PDX-2300MK2 Pro, mas tem controle de rotação (33, 45 e 78RPMs), controle de pitch e também um controle para modificar digitalmente a rotação de uma música. Atrás está a porta USB, além de plugues RCA e controles de impedância e outros. Os programas que vêm com a T.90 são o Audacity (MAC e Windows) e o Cakewalk Pyro 5 (Windows). A opção mais barata é a da Urban Outfitters e custa por volta de 140 dólares. É compatível com MAC e PC e tem um software bem fácil de usar. Toca discos de 7 e 12 polegadas em rotações 33 1/3, 45 e 78 RPM. Tem o braço automático, agulha de diamante, e controles de som. O design é retrô, de madeira, com alça de metal e resina.


Fonte: bitsmag

18 de setembro de 2010

Morre um dos Pioneiros dos Toca-Discos

Esta notícia pega mais uma vez a comunidade amante da Disco/Dance Music de surpresa... Na manhã do domingo, 08.ago, faleceu aos 58 anos o DJ Dom Lula. Luiz Carlos Freitas de Souza, ou "Dom Lula" como é conhecido entre os DJs, sofreu um AVC e faleceu em seu apartamento em São Paulo.

Carioca de Copacabana com know how de 34 anos na noite, inaugurou as melhores casas noturnas do eixo Rio/São Paulo com passagem por Nova York e Grécia.

Em 1976 tocou na boate "NEW JIRAU" no Rio de Janeiro. Ainda neste mesmo ano fez a reinauguração de uma outra badalada boate. A "LE BATEAU".

Dois anos depois tocou na primeira discoteca do Brasil, a "NEW YORK CITY" num momento em que a Disco Music fervilhava nas principais capitais de todo planeta. Neste mesmo ano ganhou o "DISCO DE OURO" como "O MELHOR DIVULGADOR DA MÚSICA INTERNACIONAL NO BRASIL" entregue aos 12 melhores DJs pela WARNER BROTHERS.

Em 1979 teve uma grande surpresa. Ganhou novamente o mesmo prêmio, só que desta vez entregue pela gravadora Polygram. Devido a sua competência epor estes dois prêmios consecutivos foi convidado para ir à Nova York e fazer a inauguração da boate "IPANEMA", dando uma canja de três noites na inesquecível DISCO "STUDIO 54" também em Nova York.

Com saudades do público brasileiro, em 1981 voltou para o Brasil, mais precisamente para a cidade de São Paulo, onde fez a inauguração do "Regine's", ficando lá durante um ano.

Em 1982, foi para a Grécia a convite de um brasileiro e inaugurou a disco "MAHATHAN CLUB" onde permaneceu como DJ residente durante um ano. Em 1983, voltou para São Paulo e inaugurou a discoteca "DANCING" se tornando residente 2 anos depois da "TAMATETE ". Em 1988 foi convidado para tocar na maior casa noturna da América Latina, uma das que mais agitaram a noite paulistana na época: a "UP & DOWN" com capacidade para 2000 pessoas.

No ano de 1989, os mesmos donos da "UP & DOWN" convidaram "DOM LULA" para inaugurar a "HIPPODROMUS", outra casa que causou furor nas noites de Sampa. Em 1990, foi novamente convidado pelo mesmo grupo para inaugurar o "KREMLIN". Uma casa voltada para um público elitizado, na faixa etária de 25 a 45 anos. Público este que "DOM LULA" cativou com toda a sua experiência e conhecimento em FLASH BACK. Ficou no Kremlin por 12 anos consecutivos até 2002. Em Agosto do ano de 2003 foi convidado para fazer as noites de FLASH BACK.

Em 19 de novembro de 2003 fez a reinauguração da famosa casa LIMELIGHT e fazia parceria com a rádio ANTENA 1 nas noites de Flash Back intituladas GOLDEN NIGHTS. Lá permaneceu como DJ residente até setembro de 2005. Manteve residência na BOOGIE DISCO, em SP nos últimos anos, e mais recentemente tocava no Café Photo no bairro do Itaim também em São Paulo.

Exímio DJ, mantinha a técnica de mixagens bem elaboradas, longas, concebida desde o início da carreira nos áureos tempos da Disco Music. Se especializou nas festas do gênero Flash Back e era, claro, muito respeitado entre os DJs por sua história e dedicação pela música nas pistas de dança.

Fonte: Gringos CDS

29 de agosto de 2010

Depois dos discos de vinil, fita cassete ensaia retorno

No cultuado livro Alta Fidelidade, do escritor Nick Hornby, é evidente a ligação entre o protagonista Rob Gordon e suas gravações em fitas cassete. O depressivo
dono de uma loja de vinis usava as seleções musicais que fazia para conquistar corações. Após a ressurreição do vinil, pessoas com o espírito de Rob estão trazendo de volta a cultura da fita cassete. O baixo custo, a facilidade de gravação e o caráter nostálgico são as características que, segundo reportagens de August Brown, nos Los Angeles Times, voltam a atrair olhares para o formato, que se propõe como alternativa
acessível ao vinil e ao CD.

Segundo a auditoria SoundScan, em 2009 foram vendidos 34 mil álbuns em cassete nos EUA. O formato é muito usado na cena indie, que tem baixo recurso financeiro.
Thom Yorke, líder do Radiohead, foi um dos responsáveis pela volta do vinil, levando a banda às velhas bolachas. É, também, um apaixonado por cassetes e apontado
como chave para o sucesso da volta das velhas fitas.

O caráter retrô do K7 também serve de chamariz para o público. Chris Jahnle, do selo independentes Kill/Hurt, grava músicas de suas bandas na sala de estar. "Se a qualidade em MP3 já é horrível, por que não gravar algo que soa ruim, mas que podemos segurar nas mãos?", questiona Jahnle.


Por Jornal Destaque

19 de agosto de 2010

Promessa que virou realidade


No dia 11 de agosto de 2010 assisti no teatro Rival o primeiro show da carreira solo do músico, cantor e compositor Gabriel Cavalcante. Ele que no alto de seus 24 anos, a muito deixou de ser uma "jovem promessa", digo isso por que o acompanho desde as fraldas, e posso dizer sem susto que o Gabriel é hoje uma refinada e absoluta realidade no tão díspare cenário do samba
carioca.

Boa voz, excelente cavaco e um repertório impecável, fazem do músico um legítimo guardião das melhores tradições do ritmo mais popular e amado da Terra Brasilis, o samba. Gabriel está longe de ser apenas mais um "pagodeiro", o moçoilo é Sambista de fato e de direito, é nítido se perceber as raízes mais fortes do samba trançadas por suas entranhas, como também a poesia mais pura do samba brilhando em seu olhar, e ainda surdos, pandeiros e tamborins dando a marcação de sua pressão arterial.

Em minha modesta observação há quatro gerações já definidas de grandes sambistas. A primeira no começo de tudo: Donga, Noel, sinhô, Ismael, Bide & Marçal, Ari Barroso, etc...; a segunda que eu chamo de fase lírica, onde estão: Cartola, Nelson Cavaquinho & Guilherme de Brito, Padeirinho, Manacéia, Ivone Lara, Silas de Oliveira, Candeia, etc...; a terceira inclui, além de sambistas natos, compositores que não se fixaram apenas no samba, e nessa estão: João Nogueira, Paulinho da Viola, Nei Lopes, Chico Buarque, João Bosco & Aldir Blanc, Martinho da Vila, etc...; a quarta geração traz o chamado "fundo de quintal", erroniamente rotulado de "samba de raiz", e nela figuram: Jorge Aragão, Arlindo Cruz & Sombrinha, Zeca Pagodinho, Almir Guineto, Mauro Diniz, etc...; e o nosso sambista em questão, Gabriel Cavalcante, certamente gravará seu nome em uma quinta geração que vem se formando nos últimos dez anos.
Quem é aficcionado pelo digno e bom samba, fique atento a este verdadeiro "peso pesado" do samba.



Por Mario Medella

17 de agosto de 2010

Soul Básico

Das baladas doloridas às melodias ensolaradas, a soul music é um vasto terreno com origem na música gospel que foi ganhando registro na forma de singles, muito mais do que em álbuns completos. Porém, com o sucesso de alguns artistas e suas gravadoras – Otis Redding e Isaac Hayes, na Stax, em Memphis, ou Stevie Wonder e Marvin Gaye, na Motown, em Detroit
– o gênero rendeu discos que se tornaram verdadeiros clássicos. A obra desses astros pavimentou o caminho para a música negra moderna e influenciou o pop produzido nas décadas seguintes. Prince, Outkast e até Gnarls Barkley são alguns exemplos.

No rap, o soul encontra eco nos trabalhos das cantoras Erykah Badu e Lauryn Hill – isso sem falar na extensa gama de bases sampleadas por inúmeros grupos. Recentemente, uma série de novos artistas ressuscitou o gênero com todo o louvor merecido. Depois do surgimento de Amy Winehouse e seu “Back to black”, ganharam destaque a banda Eli “Paperboy” Reed and The True Loves, com “Roll with you”, e ainda o compositor, produtor e arranjador Raphael Saadiq, que lançou no ano passado o disco de inéditas “The way I see it”. A lista abaixo, com 15 álbuns essenciais para entender o soul, é uma introdução ao gênero e propõe obras indispensáveis na discoteca básica do ouvinte. O G1 contou com as informações do guia “Soul and R&B”, de Peter Shapiro, e com a consultoria do jornalista Filipe Luna, idealizador da festa dedicada ao soul Talco Bells – que rola todo mês, no Cambridge, em São Paulo.

"Modern Sounds In The Country And Western Music", Ray Charles, 1962 Ray Charles pode ser considerado o artista responsável por dar forma ao soul como o gênero viria a ser consagrado nos anos 60. Foi ele quem levou a sonoridade da igreja para a música, popularizando o esquema “call and response” (“chamado e resposta”) em suas canções. É dele também uma das faixas fundamentais do soul: “What'd I say”, de 1959, traz a receita original do estilo. Na série “Modern sounds in country and western music”, o cantor e pianista cego explora outras sonoridades, como o próprio título já entrega, mas conserva a pegada que o imortalizou. O álbum reúne clássicos como “You don’t know me” e “I can’t stop loving you”.

"The Impressions", The Impressions, 1963 Muito além de ser a banda de apoio de Curtis Mayfield, o grupo vocal ajudou a dar forma ao soul de Chicago definido por ele. Se suas canções
eram doces e animadas, elas mantiveram a alma graças à tradição gospel. Seu primeiro álbum, “The Impressions”, foi uma das melhores estreias de soul dos anos 60. Quase todas as canções do repertório haviam sido escritas por Mayfield, incluindo “Gypsy woman”, composta quando ele tinha 14 anos. “It’s all right”, considerada uma das melhores, ganhou a interpretação harmônica sublime dos integrantes, aliada aos metais cheio de suingue e à guitarra inconfundível de Mayfield.

"Live At The Apollo", James Brown, 1963 Dono de muitos apelidos, de padrinho do soul a Mr. Dynamite, nenhum outro artista do gênero teve a energia de palco de James Brown. Justamente por isso o disco que melhor o representa é “Live at the Apollo”, uma série estonteante gravada ao vivo no famoso teatro de Nova York. Ao longo dos três álbuns, o músico demonstra, hit após hit – “I'll go crazy”, “Try me”, “Think”, “Please please please”, “I don't mind”, “Night train”, só para citar alguns – toda a sua capacidade musical. A reação incendiada da plateia não deixa dúvida disso.

"Otis Blue: Otis Redding Sings Soul", 1966 Um dos mais influentes cantores de soul dos anos 60 teve uma curta carreira cujo auge se deu no terceiro álbum. “Otis Redding sings soul” foi lançado um ano antes de sua morte, aos 26. Sua obra foi suficiente para que Redding ganhasse o respeito de bandas como os Rolling Stones, que gravaram duas canções suas: “That's how strong my love is" e "Pain in my heart”. Em retribuição, o cantor lançou neste álbum uma elogiada versão de “(I can’t get no) Satisfaction”. Entre outros covers clássicos estão “A change is gonna come” (Sam Cooke) e “My girl” (composição de Smokey Robinson que se tornou sucesso na voz do grupo Temptations).

"I Never Loved A Man The Way I Loved You", Aretha Franklin, 1967 A cantora, compositora e pianista não poderia ser chamada por uma alcunha diferente da de “lady soul”. Suas raízes gospel datam da época em que começou a cantar, ao lado das irmãs, na igreja de seu pai, o reverendo C.L. Franklin, na Detroit dos anos 50. Na verdade, suas primeiras gravações foram como cantora gospel aos 14 anos. Ela seguiu lançando singles pela Columbia, mas foi o álbum “I never loved a man the way I loved you”, já na Atlantic, que revelou toda a paixão e a intensidade que fazem de sua voz algo único. A interpretação de “Respect”, de Otis Redding, por si só já valeria o disco, mas ele tem outras pérolas como “A change is gonna come”, de Sam Cooke, nome importante na história do soul.

"Hot Buttered Soul", Isaac Hayes, 1969 Com ajuda dos Bar-Kays como banda de apoio, Isaac Hayes ousou lançar, em 1969, um disco com apenas quatro faixas e muitos minutos de duração. Em sua obra-prima, o dono da voz do Chef da série "South Park" alterna monólogos sobre o amor ferido e instrumentações inspiradas. Aqui, ele expande o formato da soul music com arranjos orquestrais e metais poderosos, tudo temperado com guitarras cheias de malícia - o complemento perfeito para o seu vozeirão. Hayes, morto em 2008, influenciaria outros artistas: a base de "Ike’s Rap III", do disco “Black Moses” (outro clássico do cantor, lançado em 1971), aparece em músicas dos ingleses Tricky e Portishead, e até do grupo de rap paulistano Racionais MC's.

"Stand!", Sly And The Family Stone, 1969 Foi a partir de tendências díspares do final dos anos 60 que a banda californiana criou uma mistura única de soul, rock, funk e R&B que influenciaria as gerações seguintes. Além de ser um grupo multicultural, formado por homens e mulheres de diferentes raças, o Sly & the Family Stone foi um dos pioneiros a tocar em assuntos políticos em suas letras, fazendo com que isso se tornasse uma tradição não só entre os grupos de soul, mas também de funk e principalmente rap. Ao lado de James Brown, o grupo levou o funk para o mainstream. Essa efervescência se traduz no álbum “Stand!”, com suas melodias coloridas, guitarras psicodélicas e consciência social.

"Diana Ross Presents The Jackson 5", Jackson 5, 1969 A banda que revelou o futuro rei do pop Michael Jackson foi o primeiro grupo na história a ter os seus primeiros quatro singles no topo das paradas americanas: "I want you back", "ABC", "The love you save" e "I'll be there". Jackson e seus irmãos mais velhos – Jackie, Tito, Jermaine e Marlon – se tornaram a grande sensação da gravadora Motown ao lançar seu álbum de estreia, apadrinhado pela estrela Diana Ross. Nele, o grupo interpreta canções de Stevie Wonder (“My cherie amour”), Smokey Robinson (“Who’s lovin’ you”), The Corporations (“Nobody”), entre outros. Traçando um caminho que foi além do soul, o grupo incorporou elementos de doo-wop e bubblegum ao seu repertório, com refrãos cantaroláveis e melodias fáceis.

"Everything Is Everything", Donny Hathaway, 1970 Se não tivesse morrido tão jovem, Donny Hathaway teria sido provavelmente um dos grandes nomes da música negra. A voz macia – presente em canções como “The ghetto” – contrasta com as circunstâncias trágicas de sua morte – um aparente suicídio, aos 33 anos. Mas seu legado musical é cheio de alma. Além de ter trabalhado nos bastidores como produtor, arranjador e músico de apoio para artistas como Aretha Franklin, Roberta Flack e Curtis Mayfield, seu primeiro álbum solo, feito à base de lindos arranjos em uma atmosfera gospel, não se parecia com nada que já tinha sido feito até 1970.

"What's Going On", Marvin Gaye, 1971 Muito além de ser a obra-prima de Marvin Gaye, “What’s going on” é considerado um dos discos mais importantes da soul music. O álbum revela a voz ímpar de um artista agora livre da imagem de símbolo sexual do R&B. Se antes ele se sentia encarcerado pela máquina de fazer hits da Motown, agora Gaye pode expressar sinceramente o que o preocupa por meio da música. O tema central da obra é o questionamento sobre o que teria acontecido com o “sonho americano” do passado. Concebido a partir do ponto de vista de um veterano da guerra do Vietnã, o disco versa sobre pobreza, crianças abandonadas, desemprego, a brutalidade da polícia e o uso de drogas.

"Songs In The Key Of Life", Stevie Wonder, 1972 Dono de um apetite voraz por diversos gêneros musicais, Stevie Wonder, cego de nascimento, ajudou a expandir as barreiras da música negra ao misturar funk, rock, jazz, reggae e elementos africanos em suas composições. O uso de sintetizadores, nos anos 70, mudou a cara do R&B tradicional. Esse imenso leque de interesses ajudou a torná-lo famoso internacionalmente, assim como Ray Charles. Astro da Motown, ele emplacou vários hits ainda na adolescência, mas foi com o LP duplo “Songs in the key of life” que ele realizou sua obra mais ambiciosa. Amor, questões sociais e espirituais aparecem acompanhados por uma vasta gama de arranjos, em uma performance que é considerada a melhor de Wonder.

"Superfly", Curtis Mayfield, 1972 Se Curtis Mayfield já vinha fazendo um trabalho sublime à frente dos Impressions, um dos melhores grupos vocais de soul dos anos 60, sua contribuição para a música negra na década seguinte não foi menos importante. Como artista solo, ele foi um dos primeiros a escrever temas sobre o orgulho afroamericano, além de ter sido um excelente guitarrista – suas composições têm um sotaque latino único. Sua obra-prima é “Superfly”, trilha sonora do filme de blaxploitation de mesmo nome. Nele, Mayfield descreve, com senso de realidade único, a luta pela sobrevivência nos guetos, a presença de drogas e a morte antes do tempo.

"I'm Still In Love With You", Al Green, 1972 Al Green foi o primeiro grande cantor de soul dos anos 70. Além de ter incorporado elementos da música gospel à sua obra, pontuada por gemidos selvagens e lamentos, ele é um dos poucos artistas daquela época que ainda mantêm o vigor, a exemplo do álbum “Lay it down”, um dos melhores de 2008. Em seu disco de 1972, Green não desperdiça uma só faixa: de “For the good times”, canção de Kris Kristofferson com influência country, à lenta “Oh pretty woman”, de Roy Orbison – passando, é claro, por todas as suas composições próprias – “I’m still in love with you” descortina o reverendo no auge da inspiração.

"Still Bill", Bill Withers, 1972 O cantor e compositor Bill Withers pode não ter se tornado um nome tão conhecido quanto outros artistas relacionados à soul music, mas seu terceiro álbum de estúdio é considerado o resultado perfeito da combinação de elementos contemporâneos da década de 70. “Still Bill” junta o soul macio vindo da Filadélfia com o sabor blueseiro do sul – tudo enfumaçado pelo funk de Bobby Womack. Por trás de uma atmosfera morna e de fácil acesso, revelam-se camadas profundas de arranjos e letras densas. Um dos destaques do repertório é “Lean on me”. A canção divide espaço com a ciumenta “Who is he (and what is he to you)?” e ainda “Use me”, em que o autor admite alegremente ser usado pelo objeto de sua afeição.

"Back To Black", Amy Winehouse, 2006 Se existe uma responsável por trazer a soul music para os tempos atuais, esta é a cantora Amy Winehouse. Unindo composições autorais muito menos inocentes do que as do tempo da Motown com o suingue irresistível da banda Dap Kings, a inglesa despontou como uma das artistas mais instigantes dos últimos anos ao lançar seu segundo álbum, “Back to black”. As letras sinceras e autobiográficas ganharam o acabamento do produtor Mark Ronson, que atualizou o gênero sem deixar que ele perdesse a alma. Pena que Winehouse tenha ganhado mais destaque na mídia pelos quiproquós que protagoniza – quem sabe ela retorne à forma em seu próximo disco.


Por Lígia Nogueira
(Este texto foi publicado originalmente no Portal G1)